top of page

O que nos revela a ausência das novelas africanas nas telas brasileiras?

Foto do escritor: Aboua Blaise
Aboua Blaise
17 de set.
3 min de leitura

Será que as novelas africanas não contribuiriam para a desconstrução de preconceitos a respeito da África?


por Aboua Blaise


Elenco da novela marfinense Ma Famille (2002-2007)



Pergunte para um marfinense se lembra da “Dona Beja”[1], com a Maitê Proença, e será surpreso pela resposta afirmativa. Aqui estamos falando de um país africano francófono e não um país lusófono da África. Fosse um país lusófono, isso seria da ordem da evidência, uma vez que a língua portuguesa é o vínculo linguístico entre o Brasil e os cinco países lusófonos africanos.


Mas, mesmo assim, teríamos que nos interrogar em relação às novelas produzidas nos países lusófonos africanos que o público brasileiro se recorda ter assistido, apenas uma só vez. Será que essas novelas não existem? Será que não são dignas do interesse do público brasileiro? Será que minimamente elas não contribuiriam para a desconstrução de preconceitos muito resistentes e difíceis de se remover a respeito da África?


Uma coisa é uma emissora brasileira tentar produzir uma novela dialogando com a historicidade internacional, outro desafio é retransmitir novelas do espaço africano lusófono. Primeiro insisto neste espaço lusófono por ele ser o mais óbvio e o mais fácil, justamente por conta da língua em comum.


Agora, quando esse espaço passa a ser de países francófonos africanos, a surpresa fica ainda maior. Primeiro podemos achar que é por ter sido novelas excelentes, por isso foram traduzidas e projetadas na televisão pública destes países, o que de certo modo faz todo sentido — estamos, sim, falando de novelas que a crítica cinematográfica brasileira, e até mesmo mundial, consagrou. Já fizemos referência à “Dona Beja”, mas poderíamos citar também outras novelas brasileiras que pararam cidades africanas francófonas, como Abidjan: a “Escrava Isaura”, “Torre de Babel”, “Mulheres de areia” e, mais recentemente, em 2013, “Avenida Brasil”.[2]


Aqui a questão não é somente a excelente qualidade dessas produções, mas também é a política de cultura geral que participa da formação do indivíduo. Um indivíduo que precisa descobrir o mundo, se abrir ao mundo e não achar que o Brasil se limita ao Pelé, às belas praias brasileiras e ao carnaval. O mesmo vale para os países hispano-falantes com novelas de sucesso como “Marimar”, do México, que, querendo ou não, ajudou a quebrar o estereótipo de um país marcado única e exclusivamente pela violência dos cartéis.

Um indivíduo que precisa descobrir o mundo, se abrir ao mundo e não achar que o Brasil se limita ao Pelé, às belas praias brasileiras e ao carnaval.

E o fato de estarmos em 2026 tampouco ajuda neste quadro pois, nem com o auxílio da internet e dos recursos proporcionados pela inteligência artificial, as emissoras brasileiras olharam para as produções africanas de um modo que não seja condescendente. Aqui deu para perceber que estamos falando de novelas dos anos 1990, 2000 e 2010 que invadiram as telas do espaço francófono africano. Agora perguntem para um cidadão na rua se ouviu falar da série de televisão marfinense “Ma famille”, de sucesso continental, ou melhor, se ouviu falar de “Shaka Zulu”, novela de grande impacto histórico que retrata a vida desse resistente africano que, mesmo com suas escolhas controversas, enfrentou com maestria o colono britânico na região da África austral.


Dito de outro modo, a mídia tradicional brasileira ainda tem muito que trazer para seu público. Com a explosão da internet, das redes sociais e da inteligência artificial, essa mídia passa a ter cada vez menos desculpa para não olhar para a produção cinematográfica no continente mãe. A barreira linguística não pode ser invocada. Se antes países como a Costa do Marfim conseguiram retransmitir novelas brasileiras, porque o Brasil de hoje não estaria à altura do desafio das novelas africanas?


[2] O seguinte artigo do antropólogo Jean François Werner ajuda a aprofundar essa temática referente ao Senegal, outro país francófono: Télévision et changement social en afrique de l’ouest postcoloniale Étude de cas : la réception des telenovelas au Sénégal :

 
 
 

1 comentário

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
DADIE KACOU CHRISTIAN
22 de set.

Achei o artigo muito interessante e, sobretudo, bastante pertinente. Ele me fez pensar sobre uma questão que você aborda muito bem: por que é tão difícil vermos, no Brasil, novelas e outras produções audiovisuais de origem africana ocupando um espaço significativo na televisão e nas plataformas de grande alcance?


Na minha opinião, essa dificuldade não pode ser dissociada da própria estrutura histórica e social brasileira. Embora o Brasil tenha durante muito tempo cultivado o discurso da chamada “democracia racial”, o racismo continua sendo um elemento estrutural da sociedade e também se manifesta no campo da cultura, da produção simbólica e dos meios de comunicação.


É importante lembrar que a mídia não apenas reproduz aquilo que existe na sociedade; ela também…


Curtir
  • Ícone website
  • Ícone instagram
  • Ícone Youtube
  • Ícone email

© 2026 Instituto Jira Educação em Direitos Humanos Ltda. Design de marca Empreende Afro/Statto

bottom of page