Relações raciais: por que precisamos romper o silêncio
- Cleude de Jesus

- 3 de ago.
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por Cleude de Jesus

Precisamos falar sobre relações raciais. Mas por que essa discussão é necessária? Vivemos um momento histórico e social em que o racismo tem sido identificado e debatido em diferentes situações da vida cotidiana. As pessoas negras, parcela da população brasileira que se autodeclara preta ou parda, estão sujeitas aos efeitos do racismo, ainda que algumas afirmem nunca ter vivenciado uma situação que reconheçam como racista. Isso ocorre porque o racismo nem sempre se manifesta de maneira explícita ou facilmente identificável, mas é correto afirmar que ele está presente nas estruturas sociais e atravessa as relações interraciais.
Não podemos esquecer que a sociedade brasileira foi estruturada sobre um sistema escravocrata. Embora a escravidão tenha sido formalmente abolida, as estruturas sociais, políticas e econômicas construídas durante esse período não foram completamente desmanteladas. Como consequência, as relações sociais ainda são marcadas pela hierarquização, pela desigualdade e pela desumanização historicamente impostas à população negra.
Nem sempre, porém, as pessoas envolvidas nessas relações conseguem identificar uma situação de racismo, por vezes, porque não desenvolveram consciência racial, por se tratar de um processo que exige reconhecer a raça como uma construção social capaz de atravessar as experiências, as oportunidades e as identidades das pessoas ou porque entendem que o racismo depende de intenção, do sentimento de quem sofre o racismo e outros tantos equívocos que povoam as relações interraciais.
O racismo influencia diretamente a dinâmica da sociedade porque interfere nas relações de poder, na distribuição de oportunidades e na maneira como as desigualdades são construídas e mantidas ao longo do tempo. Por isso, é necessário desenvolver uma consciência crítica sobre as relações raciais, por meio do desenvolvimento, aprimoramento e ou estruturação da consciência racial. Como afirma Neusa Santos Souza, “ser negro é tornar-se negro”.
Quando falamos sobre raça, relações raciais e racismo, rompemos o processo de silenciamento sustentado pelo mito da democracia racial. Essa discussão permite compreender que o racismo não está presente apenas em manifestações explícitas de preconceito ou em episódios abertamente ofensivos.
O racismo também não pode ser explicado exclusivamente pelo caráter, pela religião, pelo posicionamento político ou pelo nível de escolaridade de uma pessoa. Trata-se de uma estrutura social, que pode ser reproduzida, de maneira consciente ou inconsciente, por pessoas com diferentes histórias, crenças e formações.
As ações racistas podem ocorrer de maneira direta ou indireta, aberta ou dissimulada. Podem aparecer como episódios isolados ou como práticas contínuas. Quando determinados comportamentos se repetem, eles tendem a ser naturalizados, tornando-se parte das relações cotidianas e, muitas vezes, deixando de ser reconhecidos como discriminatórios, ofensivos, desumanizadores. Podemos afirmar que o normal é que o racismo se manifeste.
Nesse sentido, o racismo não deve ser entendido como uma exceção ou como um desvio ocasional nas relações sociais. Ele constitui uma estrutura histórica que influencia a maneira como as pessoas são recepcionadas, tratadas, identificadas e posicionadas social e politicamente. O desenvolvimento da consciência racial pode ajudar a identificar, questionar e interromper sua reprodução, mas não elimina automaticamente seus efeitos.
Reconhecer que qualquer pessoa pode reproduzir uma fala, uma interpretação ou uma prática racista é um passo importante para a construção de uma postura antirracista. Esse reconhecimento não significa afirmar que todas as pessoas vivenciam o racismo da mesma maneira. Significa admitir que nenhuma pessoa está completamente imune aos valores, às imagens e aos preconceitos produzidos por uma sociedade estruturada racialmente.
Uma pessoa comprometida com o antirracismo precisa manter uma atitude de atenção e responsabilidade. Isso envolve observar suas falas, suas ações, seus privilégios e suas interpretações, além de procurar compreender como o racismo está entranhado nas instituições e nas relações sociais.
Como devemos, então, lidar com ações racistas no cotidiano? O primeiro passo é identificá-las e nomeá-las. Também é necessário estabelecer parâmetros claros de não aceitação e proteger a pessoa atingida. A situação pode ser utilizada como uma oportunidade de aprendizagem, mas isso não deve apagar a responsabilidade de quem praticou a ação e nem transformar a pessoa que sofreu o racismo em responsável por explicar ou resolver o ocorrido.
É importante que as pessoas envolvidas e, quando pertinente, todo o grupo, possam refletir sobre o episódio. A reflexão deve abordar como o racismo atravessa a vida das pessoas negras e como, ao mesmo tempo, produz vantagens para as pessoas socialmente reconhecidas como brancas.
Essas vantagens nem sempre são percebidas como privilégios. Elas podem aparecer na forma de maior segurança, facilidade de circulação, reconhecimento de competência, acesso a oportunidades ou menor exposição à desconfiança e à violência. Reconhecer essas diferenças não significa responsabilizar individualmente todas as pessoas brancas pelas desigualdades existentes, mas compreender como elas ocupam posições distintas dentro de uma estrutura racializada.
O racismo desumaniza, hierarquiza as relações, preserva privilégios e contribui para a manutenção das desigualdades. Além de atingir diretamente a população negra, ele produz prejuízos sociais, políticos e econômicos para toda a sociedade.
Falar, aprender ou refletir sobre raça, relações étnico-raciais e racismo permite compreender os conflitos contemporâneos como, por exemplo, a produção secular de desigualdades, a distribuição e manutenção de privilégios — situações sociais, políticas e econômicas que resultam de processos históricos de colonização, escravização e desumanização. Romper o silêncio é uma condição necessária para reconhecer esses processos e transformá-los. Precisamos falar sobre relações étnico-raciais.
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REFERENCIAL
BRASIL. Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Institui o Estatuto da Igualdade Racial; altera as Leis nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, nº 9.029, de 13 de abril de 1995, nº 7.347, de 24 de julho de 1985, e nº 10.778, de 24 de novembro de 2003. Brasília, DF: Presidência da República, 2010. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12288.htm. Acesso em: 15 jul. 2026.
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SCHUCMAN, Lia Vainer. Entre o encardido, o branco e o branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo. São Paulo: Veneta, 2020.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.




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